Expectativas para o varejo

28 de setembro de 2020

O Brasil vem passando por um período bastante complexo no que diz respeito à atividade econômica. Desde a crise de 2014, a economia brasileira apesenta desempenho sofrível. Após duas quedas de mais de três pontos percentuais em 2015 e 2016, o Produto Interno Bruto avançou pouco mais de 1% em 2017, 2018 e 2019. Este ano, diante da pandemia, a expectativa é de queda de mais de 5%, conforme dados do Boletim FOCUS – Banco Central de 11 de setembro.

Diante desse quadro, a pandemia parece ter exposto muitas das dificuldades e desajustes setoriais que já vinham sendo observados nos últimos anos. Alguns setores da atividade econômica conseguiram manter ou incrementar seu volume de vendas, o que impactou diretamente no aumento de preços de alguns itens. No entanto, a grande maioria dos demais setores apresenta sérios problemas simplesmente para conseguir manter as portas abertas.

Setores ligados ao varejo têm apresentado resultados bastante diversos. Apesar das vendas, aparentemente, apresentarem uma recuperação rápida entre os meses de junho e julho com destaque para o crescimento das vendas dos setores de móveis e eletrodomésticos, ao longo dos últimos doze meses muitos setores têm apresentado quedas superiores à 20%, como no caso de livros, jornais, revistas e papelaria, conforme dados do IBGE. Na mesma linha, tecidos, vestuário e calçados tem uma queda de 19,7% em suas vendas nos últimos doze meses.

Diante desses números, nota-se que recuperação da atividade econômica nos próximos meses tende a ser bastante heterogênea. O setor de shoppings center pode ajudar a ilustrar este fato. O setor sempre apresentou uma grande importância para a atividade econômica dada a sua alta sensibilidade à aumentos no poder de compra da população. Ademais, o fato de reunir, em um mesmo ambiente, lojas e serviços variados incentiva o consumidor às compras e garante benefícios mútuos.

Nos últimos meses, como resultado da política de assistência emergencial fornecida pelo Estado no âmbito da pandemia, a demanda por determinados serviços nos shoppings center sofreu um incentivo extremamente significativo. Isso garantiu algum fôlego para setores relacionados à alimentação e produtos médicos e farmacêuticos. Por sua vez, conforme relatado anteriormente, setores relacionados à papelaria, livros, vestuário ou calçados ainda sofrem efeitos negativos consideráveis.

Em suma, os desafios para o varejo ainda tendem a se apresentar nos próximos meses. Por um lado, o cenário de incerteza ainda é muito evidente e o auxílio emergencial, que apresentou impactos importantes para alguns setores, tende a acabar até o final do ano. Por outro lado, setores que tiveram queda significativa nas vendas durante a pandemia, podem ser os primeiros a puxar a recuperação do varejo, principalmente por conta da demanda reprimida. O caso do vestuário ilustra esse ponto. A partir do momento em que as pessoas voltarem ao trabalho, às escolas e às suas atividades rotineiras, voltarão a comprar calçados e peças de vestuário. Para o próximo ano, a expectativa é que tenhamos um cenário menos turbulento que volte a impulsionar o emprego, de modo a garantir incentivos sustentáveis à demanda.